Impermanência

Projeto Parede – 2017

 

Pintura em técnica mista e colagem sobre parede na dimensão 6,66x2,23m.

 

Dentro do universo de minha pesquisa em artes sobre a pintura contemporânea, a paisagem e a figura humana e suas relações, proponho para o projeto parede o trabalho “Impermanência”.

 

A pintura foi o resultado de uma imersão no Sesc Carlos Prates. A partir de minhas vivências no bairro e no Sesc, selecionei algumas pessoas para serem retratadas na parede do projeto, que fica na entrada do local. Foram eles: uma família de amigos residentes no bairro (mãe, pai e filha) ; um amigo que também vive no bairro e que habita a Casa Azul (local alternativo de extrema importância para a cultura local de Belo Horizonte onde residem músicos), a qual sempre frequento; duas mulheres moradoras do bairro há muitos anos que conversaram comigo e contaram sobre suas histórias; um senhor que conheci no local que é ator e figura muito presente no tradicional baile do Sesc; e um funcionário da instituição. Além desses personagens, retratei seis pessoas da minha família, mais especificamente, da família do meu pai, que conviveram em uma casa na Rua Patrocínio, também no bairro. A imagem foi feita a partir de uma foto de família, onde estão minha avó Lucy com meu pai ainda bebê em seu colo e seu marido, o vovô Delê, uma irmã da minha avó, Dora, uma tia, Ruth e sua mãe Odete, minha bisavó. A foto foi tirada na escada da casa da família. Todos que estão na foto já faleceram.

 

A casa da minha bisavó, localizada na rua Patrocínio sempre habitou meu imaginário com muito mistério, era uma casa onde moraram vários artistas da família do meu pai, com muitos gatos e excentricidades. Vovó fez questão de mudar pra lá no fim de sua vida porque lá queria morrer. Assim o fez. Atualmente, a casa que foi parte fundamental da história da minha família é um espólio complexo de longa demora e está em processo de venda. Foi motivo de muita confusão, brigas e desafetos. A vegetação já invadiu a casa e rachou suas paredes e chão.


Muitos perguntaram porque escolhi essas pessoas para compor a pintura do mural e a resposta é porque eu quis, por afeto. Elas têm relação com o bairro, algumas com o Sesc, mas, basicamente, foi por afeto, como quase tudo que faço em pintura.
O título do painel é Impermanência. Desde o convite para participar do projeto foi um grande desafio pra mim saber que o trabalho era provisório. Busquei dialogar com essa ideia. Foi um processo que eu pouco sabia no que ia dar, com muito improviso (que eu adoro em pintura ), muitos diálogos, alguns monólogos, trocas, visitas deliciosas e momentos emocionantes. Gostaria de agradecer a todos que acompanharam e participaram de alguma forma do processo.

 

Mais do que paisagens, são miragens. Penso que o resultado da vivência e da imagem inventada que não é perene traz novos desafios. A pintura foi mais rápida, com mais velocidade, a similitude dos retratados não foi tão procurada e o improviso foi constante. Não sabia como ia ser o resultado final.

As figuras convivem como em uma colagem, onde não necessariamente interagem. Como eu peço que posem para a foto individualmente em momentos distintos, trazem cada um uma situação particular e estão quase sempre observando a objetiva, o que faz com que observem o exterior da pintura e seu expectador  depois de finalizada.

 

Proponho um encontro fictício entre essas figuras que habitam ou habitaram um mesmo bairro, cada um com sua história. O meu laço familiar, afetivo, que também é uma constante em minha pesquisa, é simbolizado por minha família.

Registrei a pintura do muro em fotografias para fazer outro trabalho que será um desdobramento deste. Ainda em projeto.

 

Impermanência de rostos, de memórias, de histórias, casas, laços e da própria pintura que estão dentro da variância do mundo. Apesar de criar a ilusão de eternidade e ter sua realidade diretamente ligada à morte, a pintura de retratos está escancarando a impermanência, a passagem do tempo e o registro do homem na paisagem, como paisagem. É um retrato de vários personagens ligados pelo recorte geográfico e afetivo e eu e a pintura somos o eixo desse encontro.

 

O suporte é preparado com colagem de papéis de seda e tecidos que intervém na composição como cores já antepostas. Essas interferências propõem camadas, transparências possíveis e acasos ao processo.

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Projeto Parede (Project Wall) – 2017

Painting in mixed technique and collage on wall. Dimensions - 6,66x 2,23m.

 

Within the frame of my artistic research on contemporary paintings, landscapes, human figures and their relationships, I have proposed to Projeto Parede the work Impermanence.

 

Painting as a result of an immersion at SESC Carlos Prates (a cultural center that finances and supports art in its many forms). From my experience in the  neighborhood and SESC, I have chosen some people to be portrayed on the project’s wall, at the entrance of the venue. They are a family of friends who live in the area (mother, father and daughter), a friend from the same neighborhood who lives in Casa Azul (an important place for the local culture of Belo Horizonte where I use to go, that also works as housing for some musicians), two women who had been living in the area for many years and who told me their stories, an actor I met there, who is always a guest at the traditional SESC dance ball and a man who is an employee from the institution.

Besides these characters, I have portrayed six people from my own family – more specifically from my father’s side, who used to live in a house at Rua Patrocínio, in the Carlos Prates neighborhood. The image was created based on a family photo, where we can see my grandmother Lucy holding my dad –still a baby then – and her husband, my grandfather Delê My grandaunt Dora, another aunt, Ruth and her mother Odete, my great-grandmother. The photo was taken by the stairs of the family house. All the characters in that photo have already passed away.

 

My great-grandmother’s house, at Rua Patrocínio, has always haunted my memories in a very mysterious way – it was a house where many artists from my father’s side of the family used to live, with several cats and a lot of eccentricities.

 

My grandmother wanted to move back there as she grew older because that was where she wanted to die. And so she did. Today, the house that played a fundamental part in the story of my family is part of a complex estate and is being put for sale. It was the reason behind family quarrels, fights and misunderstandings. Vegetation has covered the house and cracked its walls and floors.

 

Many have asked about my choice of portraying these people on my wall and the answer is ‘because I wanted to, out of affection’. They are connected to the neighborhood, some to SESC but basically, it was out of affection, as almost everything I do in painting. The title of the painting is Impermanence. From the moment I was invited for the project it was a challenge for me to know that it was going to be a temporary piece. I started a dialogue with this idea. I wasn’t aware of the outcomes of such a project, as it involved lots of improvisation (which I love in painting), many dialogues, some monologues, exchanges, pleasant visits and many emotional moments. I would like to thank everybody who in some way followed me and took part in this process.

 

More than landscapes, they are mirages. I think the result of going through the process of creating a temporary image brings new challenges. I painted more quickly than usual, with a pace that didn’t aim at the accuracy of the faces in the portraits and I was constantly improvising. I had no idea what it would look like in the end.

 

The images are placed together as a collage, not necessarily interacting among them. As I ask the subjects to pose individually and in different moments for the photographs I take before painting, each one of them brings into the scene a specific situation and is more often than not looking into the camera, which makes them look out of the painting, and into the audience, once it’s done.

 

I propose a fictional encounter between these subjects who live or lived in the same neighborhood, each one with their own story. My familiar and affective bonds, also very present in my research – are represented by my own family. I have photographed the paintings on this wall in order to keep them for another work that will unfold from this one. Still a work in progress.

 

Impermanence of the faces, memories, stories, houses, bonds and the painting itself, within the variations of the world. Although it creates an illusion of eternity and is directly connected to death, portrait painting is overtly impermanent as it portrays the passing of time and the record of individuals in the landscape, as landscape. It’s a portrait of many characters connected by a geographic and affective approach. My painting and I are the axis of this encounter.

 

The canvas support is prepared with silk paper and fabric collage – which work in the composition as previously laid colors. These interferences suggest layers, possible transparencies and a twist of chance and randomness in the process.

Impermanência

6,66x2,23m pintura acrílica, vinílica e colagem sobre parede 2017 Local: Sesc Carlos Prates, Belo Horizonte.

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