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  • Leonora Lobo Weissmann Serpa de Andrade

Natureza Feminista




Natureza feminista


A extinção do dualismo que segrega homens e mulheres, natureza e cultura, corpo e mente foi discutido de forma primorosa pela feminista francesa e ativista dos direitos humanos Françoise d´Eaubonne (1920-2005) em seu Le Féminisme ou la Mort, publicado em 1974. Foi nele que apareceu pela primeira vez o termo cunhado como Ecofeminismo, vertente feminista ligada à natureza que ganhou força nas décadas seguintes pela Europa e segue em plena expansão. O movimento destaca paralelos entre o patriarcalismo e a extinção ambiental. A ideologia luta, em suma, por práticas anti-opressivas, livre de hierarquia e dominação, desconstruindo o mito da natureza superior masculina e humana perante as demais formas de vida – somos todos parte de um organismo comum.


É sobre o pensamento feminino e natural, com ecos no ideal de D´Eaubonne, que nasce Natureza Feminista, exposição coletiva em cartaz na AM Galeria de São Paulo. Nela estão reunidas artistas mulheres que, em comum, tratam sobre suas relações íntimas com o meio ambiente. Pinturas, desenhos, esculturas, instalações e fotografias discutem em diferentes níveis a percepção da capacidade das mulheres como promotoras de uma revolução ecológica.


Foi pensando nessa confluência ecofeminista que nascem as instalações das artistas Licida Vidal e Fernanda Feher. A terra como corpo fecundo é a matéria-prima comum entre as duas esculturas presentes no espaço, que se desenvolvem neste habitat conforme o passar dos dias, transformando-se em formas vitais e os expectadores, em parte ativa desse processo. O gerir de tais produções durante o período expositivo vem de encontro ao autorretrato da artista Leonora Weissmann e seu filho Theo, ambos rodeados pela água, fonte imprescindível para a vida de qualquer organismo. A água mostra-se mais uma vez como fio-condutor levando o olhar de quem transita pela mostra em direção a uma das cenas capturadas por Paula Huven, que se utiliza também da figura feminina imersa na liquidez.


Paisagens vibrantes do reino vegetal permeiam os recortes em vinil de Sylvia Amélia e as pinturas de Carolina Botura e Livia Paola Gorresio em cores intensas e traços figurativos, que nos translocam ao espaço onde foram concebidas, como se pudéssemos, através do olhar, sentir aroma, calor e brisa que por ali passam. Os detalhes de tal mata se destrincham nas pequenas telas de Camila Rocha, com as quais a artista constrói uma espécie de glossário natural do que o reino vegetal nos oferece.


A poética do mundo natural em contato com o humano aparece sob dois diferentes aspectos nas fotografias de Luzia Simons e Estela Sokol. Se a soturna imagem floral da primeira nos leva diretamente às pinturas da renascença holandesa, referência presente também na natureza-morta de Andrea Azzi, na segunda é possível reconhecer de forma mais clara a presença da tecnologia e a interferência humana. Tal humanidade aparece também nas esculturas de Maria Helena Andrés e Thais Helt, nas quais matérias-primas naturais, como papel, com misturam-se com formas produzidas pelo homem.


O feminino, como fonte que gere, nutri e cria, está presente de forma estelar na obra de Niura Bellavinha. A impressão de tinta mineral em papel algodão é composta por pintura em carbono e poeira de meteoritos, os mesmos que passeiam pelas galáxias e nos relembram da imensidão do universo natural. Tal força cósmica encontra seu par na pintura de Ana Horta, que nos leva à sua paisagem orbital, um passeio galáctico que nos faz relembrar o imprescindível: o fato de estarmos todos interligados, sem a pretensão de se poder sobreviver em soberania.



Ana Carolina Ralston

curadora


Artistas participantes:

Ana Horta

Andrea Azzi Camila Rocha

Carolina Botura

Estela Sokol Fernanda Feher

Leonora Weissmann Licida Vidal

Livia Paola Gorresio

Luzia Simons

Maria Helena Andrés

Niura Bellavinha

Paula Huven

Sylvia Amélia

Thais Helt

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